Por que se produz software livre?

Por que se produz software livre?

Sem dúvida as motivações que qualquer desenvolvedor tem para produzir software livre são uma combinação pessoal e intransferível. Mas, para clarear um pouco as ideias, podemos falar de duas grandes linhas de motivação:

  • A ética, que poderia estar simbolizada pela Free Software Foundation, herdeira e seguidora da cultura hacker.[1] Esta linha argumenta que o software é conhecimento e deve poder ser difundido sem restrições. Sua ocultação é considerado uma atitude antissocial e a possibilidade de modificar programas, uma forma de liberdade de expressão.
  • A pragmática, que poderia estar simbolizada pela Open Source Initiative. Esta linha argumenta fundamentalmente vantagens técnicas e econômicas e coloca ênfase nas características práticas do software livre (tanto para quem produz software como para outros atores e mesmo para a sociedade em geral).

Essas linhas estão presentes em todas as partes no mundo do software livre, começando pelos dois nomes (free software, open source software) pelos quais são conhecidas em inglês. De fato, esses dois nomes são utilizados também para caracterizar a free software community e a open source community, cada uma delas identificada ou com os motivos éticos ou com os práticos. De toda forma, e com um pouco mais de perspectiva, poderíamos considerar as razões éticas e as práticas como dois extremos de um espectro no qual cada pessoa interessada no software livre poderia se situar segundo a combinação de motivações que a movem.

Além dessas duas grandes motivações, há muitas outras razões para trabalhar no desenvolvimento de software livre. Por exemplo, Linus Torvalds menciona sempre a diversão como uma de suas principais motivações para trabalhar no Linux e sem dúvida há muitos que simplesmente trabalham em software livre porque lhes pagam por isso (algo possível pois existem modelos de negócios viáveis, como será comentado mais adiante).

Coopetição

Dito tudo isso, é importante observar que, independente das motivações de cada um, e mesmo da comunidade ao que considera pertencer, o software que todos eles produzem é o mesmo. Podem ocorrer (e de fato se ocorrem habitualmente) situações em que uma empresa produz um programa livre (por motivos estritamente práticos, com o fim de apoiar um modelo de negócio) que é logo melhorado por um voluntário que trabalha por motivos éticos e que é finalmente adaptado a um novo ambiente por outro que o faz somente para passar um bom tempo.

Dessa maneira, o mundo do software livre é altamente cooperativo. As características próprias das licenças e a cultura da maioria das comunidades facilitam enormemente a colaboração entre atores que, em muitos casos, nem sequer se conhecem, e que trabalham com motivações muito diferentes. A grande quantidade de desenvolvedores os quais têm uma motivação com grande componente ético assegura, além disso, que existam agentes especificamente interessados em cooperar para conseguir seus fins. E também os que estão por motivos práticos encontram na cooperação, geralmente, uma estratégia vantajosa.

Mas o mundo do software livre é também fortemente competitivo. Qualquer um pode melhorar um programa. Todos os desenvolvedores trabalham “em aberto” e as melhores versões são rapidamente adaptadas pelos usuários e por outros desenvolvedores. Há poucos custos derivativos de mudar para outra versão que é quase igual mas tem alguma vantagem. As empresas que produzem software no mesmo domínio competem fortemente entre si (pense-se, por exemplo, em todas as que produzem distribuições de GNU/Linux que são, no fundo, muito parecidas). Mas os projetos com um alto componente voluntário também acabam competindo por ter a melhor solução (é bem conhecida a competição entre GNOME e KDE por ter o melhor ambiente de escritório).

Para designar esta situação em que os atores estão ao mesmo tempo competindo e cooperando, usa-se o termo “coopetição”, muito adequado para descrever a situação. São muitos os que acham que o êxito e o grande crescimento do software livre têm muito a ver com a grande potência desses dois mecanismos que trabalham juntos, retroalimentando-se, potencializando-se um ao outro.

Modelos de negócio

Sem ânimo de oferecer em tão pouco espaço uma visão panorâmica completa dos modelos de negócio usados para produzir software livre, convém mostrar algumas pinceladas sobre este tema, respondendo, mesmo brevemente, à pergunta de “como se pode viver da produção de software livre?”. O que está em questão, no fundo, é a sustentabilidade do modelo, ao menos em certa medida. Somente se o mundo do software livre conseguir recursos suficientes (geralmente na forma de esforço de desenvolvedores) poderá produzir a quantidade e qualidade de programas de que necessitamos. E muitos desses recursos estão ligados a que existam suficientes remunerações (desde os programadores que necessitam viver, comer e essas coisas, até que as empresas que esperam ter benefícios).

Repassemos, portanto, quais modelos de negócio estão sendo objeto de exploração em relação à produção de software livre. Em geral, quase todos estão baseados na prestação de serviços a terceiros. Esses serviços rentabilizam de uma ou outra forma o software que foi produzido e produzem um benefício pelo qual o terceiro está disposto a pagar. Por exemplo, pode haver quem esteja interessado em ter um programa com certas adaptações pelas quais está disposto a pagar. Em geral, quem está melhor colocado para oferecer essas melhoras com boa qualidade e a bom preço, é o produtor original do programa, que dessa maneira obtém receitas.

Este simples exemplo ilustra muito bem um dos principais fundamentos desses modelos de negócio. O software não é visto como um produto que se comercializa: já vimos que o software livre pode ser redistribuído sem restrições e assim é difícil encontrar quem esteja disposto a pagar simplesmente por recebê-lo. Portanto, o software tem de ser entendido de outra forma: como um serviço. No exemplo anterior, o serviço é a adaptação do programa, pela qual o terceiro está disposto a pagar. Desse modo, a realização de melhoras, adaptações, integrações etc., torna-se um dos casos mais habituais de negócio baseado na produção de software.

Existem muitos outros modelos, muitos deles não centrados na produção. De fato, em muitos casos o software livre é na realidade um subproduto de outra atividade principal, que é a que proporciona os rendimentos. Por exemplo, o software livre pode ser um valor adicionado para vender aparatos eletrônicos ou serviços de manutenção de sistemas de informática.

Sem entrar em mais detalhes, hoje em dia, a pergunta não é tanto se é possível encontrar modelos de negócio baseados em software livre (ou, de outra maneira, se é possível viver do software livre). Inumeráveis casos já demonstraram que não é somente possível, mas também, até certo ponto, comum. A pergunta interessante é qual é o melhor modelo de negócio em determinadas circunstâncias. Respondê-la adequadamente (e com a criatividade suficiente) depende provavelmente da sustentabilidade em longo prazo do mundo do software livre.


[1] Aqui usamos hacker no sentido do Jargon File, que, entre outras, inclui a definição: “Pessoa que desfruta explorando os detalhes dos sistemas programáveis e de como aproveitar suas capacidades, em oposição à maioria dos usuários, que preferem aprender somente o mínimo necessário”. O término é difícil de traduzir, mas poderíamos dizer que se refere a alguém que é muito bom no “seu”, sendo neste caso “o seu” o desenvolvimento de software. Quem estiver interessado, pode ler o breve mas interessante “Why Software Should Not Have Owners” [Em português, “Por que o software livre não deve ter proprietários”: http://www.gnu.org/philosophy/why-free.pt-br.html%5D de Richard Stallman, que resume alguns aspectos desta ética.

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>> Principais consequências

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  1. Oi pessoal, uma pequena correção. Na nota de rodapé o link mostrado “http://www.gnu.org/philosophy/why-free.é.html” está incorreto. Tem que tirar o “é” de antes do html, deixando assim “http://www.gnu.org/philosophy/why-free.html”

    Parabéns pelo trabalho!

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