Embriogênese dos corpos políticos copyleft

Embriogênese dos corpos políticos do copyleft

Recentemente, a ministra espanhola da educação e cultura insultava o senso comum proclamando que “a cultura sem a indústria não existe”. O monopólio da representação que a indústria tecnocultural exerce coloca em segundo plano os fatores produtivos que sustentam e originam os processos culturais: a própria sociedade (com ou sem indústria, até mesmo apesar dela). A internet surgiu e se desenvolveu à margem dos grandes investimentos econômicos e das próprias multinacionais. Somente muito mais tarde elas tentaram se apropriar do novo ambiente no que veio a se chamar “boom das ponto-com”[1]. O esquema se repete de vez em quando na história da cultura e da técnica. Diversas correntes e contracorrentes culturais e sociais dão lugar a um novo fenômeno, dando-lhe um significado próprio, uma capacidade socialmente vinculadora e efetiva. Somente depois é que se cristalizam ou se afastam as grandes estruturas de poder incapazes de criar por si mesmas novidades socialmente significativas, novos territórios simbólicos. Embora seja impossível pensar a totalidade da cultura e da tecnologia atuais sem fazer referência à indústria, é igualmente impossível explicar essa totalidade sem fazer referência a outros fatores, movimentos e aspirações que lhe foram precedentes e que a seguem fazendo possível. Considerar a cultura e seu substrato tecnológico como exclusivo da indústria e o copyleft como recente ameaça oportunista de aficionados e “piratas” é uma exigência do copyright para se justificar a si mesmo; não somente negando uma identidade ao oponente, mas também lhe subtraindo uma história e um contexto que dê razão a sua existência e expressão de sua potência.

Em relação à formação de um sujeito político para e a partir da tecnocultura livre, não existe nem um vazio cósmico anterior ao big bang das redes de computadores, nem a tecnocultura aparece como um mar contido exclusivamente no frágil aquário do mercado da propriedade intelectual. Pelo contrário, toda uma série de agentes de mudança já estava lá antes e durante o surgimento da rede, dos computadores e das possibilidades que eles geram. As trajetórias desses agentes estavam claramente vinculadas a aspirações de cunho sócio-político na forma de uma luta pela libertação da cultura e do conhecimento (e com ele do domínio psicológico, simbólico e técnico), sempre de mãos dadas a uma cultura de liberdade (que o software livre tão claramente herdou). Como bem soube mostrar Luther Blisset na novela histórica Q, o surgimento da imprensa, paralelamente ao surgimento do protestantismo e das sucessivas revoltas que percorreram a Europa durante o século XVI, supõe um ponto de partida inevitável na história da libertação cultural (então sob a forma de religião). São muitos os enciclopedistas, curadores de museus públicos, educadores, jornalistas que defendem a liberdade de expressão, pesquisadores ou bibliotecários. Como exemplo, há o grande movimento de alfabetização e acesso à cultura que penetrou na Europa com as revoluções do início do século XX e, especialmente, durante a Segunda República e a Guerra Civil espanholas. Definitivamente, o conjunto de lutas sociais que conquistou os direitos a educação pública, liberdade de expressão e acesso universal à cultura e ao conhecimento desaparece por completo da capacidade de pensamento de nossos ministérios.

A intensidade da memória mais recente permite distinguir ainda muitas outras trajetórias próximas que convergem nas lutas digitais que hoje vivemos: alguns cibernetistas dos anos quarenta e cinquenta, redes de aficionados por computadores, lutadores pelo acesso universal às linhas telefônicas, movimentos literários e  contraculturais (como o ciberpunk), comunidades de cientistas, yippies,  criptoanarquistas, comunidades de programadores (como as do MIT ou de Berkeley), ativistas de mídia (com um exemplo paradigmático nas rádios livres), promotores contraculturais, pedagogos, artistas de colagem e de recombinação livre, subvertisers (subversivos da linguagem e dos dispositivos publicitários), guerrilheiras da comunicação (como Sonja Brünzels ou Luther Blisset) etc.

O que hoje se apresenta como sujeito político copyleft não surge, portanto e exclusivamente, como reação aos abusos que os lobbies do copyright estão exercendo sobre a sociedade: não se trata de um sujeito que se define somente em oposição. Pelo contrário, os corpos ativistas do movimento copyleft partem de múltiplas experiências comunitárias e históricas, transformadas, isso sim, pelas novas possibilidades tecnológicas, pelas redes de computadores e pelos novos contextos do conhecimento.

NOTAS:

[1] – O “boom das ponto-com”, ou “dot-com bubble” foi uma bolha especulativa ocorrida nos mercados financeiros no final dos anos 1990 até o ano 2000. Assim, empresas de informática, lastreadas pelo crescimento da internet acabaram tendo suas ações excessivamente valorizadas. Enquanto muitas delas provaram que sua valorização era mera especulação e seu valor real não correspondia ao dos papéis, algumas outras acabaram crescendo e se tornando corporações gigantescas. Mais informações podem ser encontradas em http://en.wikipedia.org/wiki/Dot-com_bubble. (N. do T.)

<< O copyright contra a comunidade na era das redes de informática

>> Comunidade, tecnociência, trabalho e cooperação na constituição do ativismo copyleft

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