Alguns princípios táticos como conclusão

Alguns princípios táticos como conclusão

 

# Não deixar de alimentar o bem comum com recursos, materiais e infraestruturas copyleft para alcançar uma massa crítica que permita uma autonomia completa dos modos de produção privativos.

# Produzir infraestrutura ativista aberta, reapropriável, modificável, recombinante, ampliável e copyleft.

# Considerar a tecnologia, o conhecimento e a cultura como espaços de conflito político e produção social.

# Defender os ideais da liberdade e da autonomia acima dos aspectos econômicos e técnicos que podem (ou não) fazer do copyleft um espaço atrativo para a indústria.

# Buscar as deficiências técnicas do regime de propriedade intelectual e de monopólio comunicativo que permitam abrir novos espaços de autonomia e bem comum sustentável.

# Experimentar com os limites do imposto, criando territórios próprios de conhecimentos e cultura nas mesmas áreas da produção cultural e social.

# Lutar a partir da legitimidade e da transparência de nossos códigos e de nossas organizações ativistas, desenvolvendo arquiteturas de redes sociais fortes e adaptativas (redundantes, distribuídas, modulares, recombináveis e dinâmicas).

# Não delegar as decisões técnicas ou comunicativas a representantes ou especialistas. Construir desde a base, produzindo inteligência coletiva e fazendo de cada problema e necessidade uma oportunidade para a participação e a conexão com outros movimentos e comunidades.

# Tornar visível o conflito com o poder dos monopólios das indústrias da telecomunicação e da cultura, transmitindo a toda a sociedade o que realmente está em jogo por trás da frenética criação de leis e tecnologias de implantação da propriedade intelectual, desmascarando os interesses ocultos e as práticas antidemocráticas que os lobbies utilizam.

# Exigir das administrações públicas uma política clara de compromisso com o domínio público, com a preservação e defesa ativa dos direitos de acesso à cultura, impondo limites à indústria cultural e de telecomunicações. Não permitir que o dinheiro público seja investido para produzir sistemas de conhecimento e cultura privativos.

# Concentrar os esforços e sincronizar as mobilizações para impedir a implantação de leis, dispositivos e medidas que bloqueiem a infraestrutura copyleft: patentes de software, mecanismos anticópia, proibições de investigação do funcionamento da infraestrutura tecnológica, fazendo uso de todos os meios possíveis para bloquear esses dispositivos.

# Criar alianças com outros movimentos sociais cujas lutas estão contidas nas novas formas de capitalismo cognitivo (precariedade, migração, biotecnologias, contrainformação, educação etc.).

# Evitar a corrida tecnológica clandestina entre mecanismos anticópia e métodos, cada vez mais complexos, de subvertê-los (o que deixaria cada vez mais longe o acesso à cultura da maioria da população). Favorecer, por outro lado, uma mobilização social que exija o reconhecimento de seus direitos e promover a desobediência tecnopolítica pública, coletiva e transparente quando for necessário.

O copyleft implica a criação de subjetividade política através da defesa de uma série de direitos fundamentais (ameaçados pelo regime de propriedade intelectual) e das possibilidades abertas por um modelo de produção cooperativa de comunicação, conhecimento, tecnologia e cultura. Este movimento

(diverso, distribuído, descontínuo, dinâmico) não surge do nada, e menos ainda do oportunismo que as brechas da propriedade intelectual permitem, mas herda as aspirações, experiências e práticas de movimentos sociais anteriores, transformados pelas possibilidades sociotécnicas das novas tecnologias da informação e da comunicação. Este é um movimento que constitui as sociedades do conhecimento no qual dois modelos de sociedade lutam para definir suas bases. O modelo do copyright (gestão mercantil, privada e privativa de comunicação, ciência e cultura) possui atualmente a maior parte dos meios de comunicação e produção e um poder econômico que ridiculariza a legitimidade das instituições democráticas. O copyleft, por outro lado, possui um modelo produtivo mais potente (baseado nas possibilidades inovadoras, acumulativas, participativas e recombinantes que permite) e uma legitimação social inerente às possibilidades das novas tecnologias.

Mas o copyleft como modelo produtivo não será capaz de decidir sobre o futuro da sociedade do conhecimento. É a sociedade em rede que tem de se mobilizar para evitar os bloqueios que o regime de propriedade intelectual está impondo sobre a cooperação social; porque o que está em jogo não é a gratuidade de uma série de bens culturais, mas a própria possibilidade de um modelo de sociedade baseado no conhecimento e na cultura livre. Articular e sincronizar um movimento social e político autônomo, que em sua luta para defender a livre circulação de saberes gere uma sociedade livre, é o verdadeiro desafio do copyleft. Para isso, é necessário tomar consciência da natureza política do copyleft. Um estado de consciência surge no cérebro biológico como a sincronização transiente de inúmeros impulsos nervosos distribuídos ao longo de diversos córtices cerebrais, núcleos talâmicos,  áreas senso-motoras e somato-sensoriais. A consciência não é algo que possa ser imposto a partir de um módulo central. Não existe tal coisa no cérebro humano. Tampouco no cérebro coletivo que é a rede. O desafio: sincronizar as vozes com outras tantas redes sociais, coordenar a ação política, gerar áreas de desenvolvimento de ferramentas táticas de intervenção política (como mais um dos processos produtivos do copyleft) para alcançar um estado de consciência social que torne irreversível o que já está em nossas mãos: uma sociedade livre através de um conhecimento e uma tecnologia livres.

 

 

Nota: o uso estratégico da legislação de copyright para driblá-lo e permitir a livre circulação de conhecimento, técnicas e cultura, de nenhum modo, reflete nossa aceitação ou nosso acordo com esta legislação que consideramos abusiva, mercantilista e privativa.

 

<< Esboço de uma cartografia reticular através de algumas trajetórias ativistas

>> Capítulo 8: Libertar a mente: o software livre e o fim da cultura privativa: Eben Moglen

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