Comunidade, tecnociência, trabalho e cooperação na constituição do ativismo copyleft

Comunidade, tecnociência, trabalho e cooperação na constituição do ativismo copyleft

As possibilidades comunicativas da rede têm sido supervalorizadas e romanticamente maquiadas ou demonizadas pela mídia, por algumas disciplinas acadêmicas, empresários da rede ou grandes corporações do infonegócio. É comum a privatização e escravização das redes sociais virtuais para se apropriar de sua criatividade e explorá-las como plataformas publicitárias, ou como valor de troca para os donos de suas infraestruturas virtuais (é o caso do MSN spaces, Bebo, Yahoo 360º, SecondLife etc.).[1] Mas é certo também que, desde seus primórdios, a internet é o campo de exploração e experimentação de novas possibilidades de construção de uma realidade cooperativa, de diversas práticas que tentam retirar a comunicação social da passividade consumista e da forma espetacular para lhe devolver o protagonismo ativo e uma dimensão de  construção comunitária. Algumas experiências sociotécnicas autônomas (cuja existência passa intencionalmente despercebida nos espaços midiáticos hegemônicos) sobrevivem resistindo aos golpes da privatização corporativa. Criando sua própria infraestrutura técnica, estas comunidades construíram verdadeiras sociedades alternativas, ultrapassando a virtualidade da rede e criando territórios experimentais e comunitários, verdadeiras cosmo-visões e poderes sociotécnicos de base. Longe de gerar um afastamento progressivo da interação presencial, muitas dessas comunidades se formaram e se reforçaram graças precisamente à retroalimentação entre infraestruturas de comunicação a distância e aos encontros presenciais, à convivência em espaços autônomos ou às redes distribuídas de amizades que sustentam os contínuos deslocamentos a que o capitalismo tardio os submete.

Mas as novas tecnologias permitiram não somente o surgimento de novos espaços comunicativos e sociais, mas também que eles se convertessem em metáforas de pensamento, organização e ação política. Assim, a rede não somente cria um novo ambiente, mas também uma nova forma de pensar, de nos pensar e atuar como rede, na rede e a partir dela. Portanto, este sujeito emergente não é concebido mais como um corpo hierarquicamente organizado, cujo êxito político depende da manutenção de uma identidade uniforme, uma disciplina de partido e uma linha estratégica definida inicialmente. Comparado ao sujeito político clássico, o ativismo copyleft é o resultado de toda uma série de atores, ligações, espaços e ferramentas que confluem na formação de uma rede ativista distribuída e recombinante. Uma rede na qual os momentos de intensidade política se configuram e se diluem permanentemente, mostrando uma capacidade de mobilizar recursos e criatividade de formas  imprevisivelmente novas.

Ao se situar geralmente nas áreas produtivas da ciência e da tecnologia, o ativismo copyleft é capaz de reapropriar rapidamente os novos conceitos e ferramentas tecnocientíficas para colocá-los na ação política. Na vertente mais técnica, os hackers constroem universos técnica e simbolicamente desenvolvidos (de forma coletiva e  comunitária, tribal) que permitem entender o poder político e jurídico como um sistema e, portanto, como uma estrutura vulnerável a intervenções técnicas que permitem abrir novos espaços de liberdade (como a concepção tecnojurídica das licenças GPL, também chamadas licenças virais pelo espaço autônomo de reprodução que elas geram dentro do sistema operacional do copyright). Essas metáforas da mudança, ferramentas tácticas conceituais, são o fruto das experiências e comunidades técnicas que nasceram do novo ambiente e das possibilidades comunicativas e de intervenção que as infraestruturas da sociedade da informação definem.

As tecnociências e seus contextos epistêmicos também abriram a possibilidade de combinar, como territórios simbólicos úteis para a autocompreensão e organização do copyleft, outras linguagens e práticas sociotécnicas como as das ciências cognitivas, do paradigma da complexidade e das ciências do artificial (inteligência e vida artificial) ou da teoria de redes. Assim, por exemplo, a vida artificial e a biologia teórica permitiram conceitualizar os modelos do ativismo viral[2] ou encontrar sistemas evolutivos muito poderosos nos quais é reconhecida a transferência genética horizontal bacteriana,[3] assim como concebem e praticam formas de inteligência coletiva sem comando central com exemplos simulados em que regras locais de interação entre indivíduos dão lugar a padrões emergentes de adaptação coletiva em colônias de formigas, abelhas ou cupins. A teoria de redes permitiu mapear e analisar as redes sociais que formam o fenômeno dos blogs,[4] identificando e definindo comunidades dentro da blogosfera. Além disso, a transparência e a digitalização dos processos sociais das comunidades copyleft (especialmente a do software livre) permitem um estudo quantitativo sem precedentes na metodologia sociológica e etnográfica que reverte o conhecimento, gerado desse modo, aos próprios processos de produção[5]. Outras áreas, como a antropologia e a sociologia participativa e militante viram no copyleft uma condição necessária para sua realização, adotando rapidamente os formatos e ferramentas das comunidades de desenvolvimento do software livre em seus próprios processos de pesquisa ativista,[6] usando os recursos e conhecimentos gerados sobre seus próprios objetos/sujeitos de estudo.

Em certas ocasiões, a precariedade e as novas condições do trabalho imaterial  contribuem com novas relações e oportunidades simbióticas e parasitárias ao ativismo copyleft. Se o trabalho assalariado exige hoje uma aprendizagem permanente e a mobilização intensa de recursos emocionais e cognitivos, estendendo o espaço produtivo a todos os âmbitos da vida cotidiana, então a fórmula inversa também é aplicável: reutilizar e recombinar infraestruturas e tempo de trabalho assalariado no ativismo e investir o tempo de ócio consumista (um dos motores do capitalismo pós-fordista) nas redes produtivas copyleft. Assim, um designer, uma programadora, um pesquisador universitário, uma bibliotecária, um tradutor ou uma jornalista podem gerir seu tempo de trabalho/ócio de forma muito mais flexível que na linha de montagem industrial e reutilizar para o ativismo os recursos disponíveis para o trabalho: infraestrutura de comunicação (internet e telefonia), computadores, deslocamentos, recursos cognitivos (bibliotecas, bases de dados etc.), relações de trabalho etc. Se, além disso, seu ambiente de trabalho se insere na produção ou prestação de serviços copyleft, então o fluxo de valor de uso entre emprego e ativismo torna-se muito mais intenso e simbiótico (é o caso das cooperativas de software livre, jornalismo, editoras e netlabels copyleft, artistas, gestores culturais etc.).

Outro fator decisivo na hora de pensar o ativismo copyleft é a transversalidade com que ele atravessa outras tantas práticas políticas: as novas lutas trabalhistas em relação à precariedade (especialmente no âmbito da produção imaterial), a contrainformação e a liberdade de expressão, o hacktivismo, as associações e cooperativas de consumidores, a pesquisa militante, as contraculturas musicais, a ecologia (especialmente no que se refere às biotecnologias privadas), a educação ou a defesa da privacidade (para mencionar alguns). Todos esses aspectos da vida e todos esses movimentos políticos contemporâneos (assim como a infraestrutura telemática e a produção imaterial de todo movimento social) encontram no copyleft um modelo que potencializa sua visibilidade e enquadra grande parte de seus espaços de conflito, ao mesmo tempo em que permite articular as aspirações participativas, abertas e livres que as definem. A convergência das lutas sociais na necessidade de se defender espaços e infraestruturas comunicativas livres, assim como para libertar os mecanismos de produção e distribuição de bens  imateriais, dá ao copyleft um grande potencial de sinergias cooperativas entre movimentos sociais (não poucas vezes frustradas pelo nível de complexidade técnica e legal ou pela falta de linguagens comuns).

Comparado a outros modelos de ativismo fechado, clandestino ou identificado (muito mais fácil de ser criminalizado e marginalizado), o fator decisivo das possibilidades do ativismo copyleft reside na aplicação do sistema produtivo copyleft ao próprio processo de produção política (além de liberar os manifestos e os vídeos ativistas com licenças  copyleft). Muito do que é válido para a produção de software e de conhecimento livre também é válido para o ativismo: manter sempre abertos os locais participativos, criar projetos modulares e recombináveis entre si, compartilhar recursos e infraestrutura, liberar os códigos organizacionais e operacionais, documentar os processos produtivos, gerar comunidades e aproveitar as sinergias simbióticas com outros agentes produtivos sem perder autonomia. Assim, a dimensão política do copyleft perpassa por completo a ideia de “uma forma alternativa de gerir os direitos de autor”, ou mesmo a ideia de um modelo alternativo de produção e distribuição cultural. O ativismo e as comunidades copyleft mostram seu potencial nas novas formas de produção social: abrir e liberar as fontes da produção social (em suas vertentes simbólicas, organizativas, científicas, tecnológicas e comunicativas) é o verdadeiro potencial de movimento que subjaz sob a forma do copyleft. Parafraseando Wu Ming 4[7] 1: fazer da própria criatividade ativista uma metáfora das formas de produção social, ser portadores dessa mesma mudança, atuando por contágio ao longo das conexões da rede, que conduzem a novos e velhos mapeamentos do comum.


[1] Basta ler o seguinte excerto dos termos do contrato do MSN spaces: “No que diz respeito a qualquer material  que você envie ou de outro modo proporcione à Microsoft em relação aos sites do MSN (um “Envio”), você autoriza a Microsoft a (1) usar, copiar, distribuir, transmitir, mostrar publicamente, executar publicamente, reproduzir, editar, modificar, traduzir e mudar o formato de seu Envio, sempre em relação aos sites do MSN e (2) sublicenciar esses direitos, na medida do permitido pela lei aplicável. A Microsoft não pagará a você nada por seu Envio. A Microsoft poderá eliminar seu Envio a qualquer momento. No que diz respeito a cada Envio, você manifesta ter todos os direitos necessários para conceder a autorização prevista nesta cláusula. Na medida do possível, de acordo com o permitido pela lei em vigor, a Microsoft poderá controlar seu correio eletrônico ou outras comunicações eletrônicas e poderá revelar tal informação, no caso de que acredite ter as razões suficientes para crer que é efetivamente necessário, para o objetivo de garantir o cumprimento deste Contrato e de proteger os direitos, propriedade e interesses dos Colaboradores da Microsoft ou qualquer um de seus clientes” [http://privacy2.msn.com/tou/es-es/default.aspx]. [A versão em português é levemente diferente e está em http://explore.live.com/microsoft-service-agreement?mkt=pt-br. (N. do T.)]

[2] Guiu, L. (2001) Código abierto y bacterias [“Código aberto e bactérias”]. Texto publicado na biblioteca on-line de Sindominio [http://biblioweb.sindominio.net/s/view.php?CATEGORY2=5&ID=121].

[3] Barandiaran, X. e Guiu, L. (2004/2006) Autonomía, Comunicación y Evolución en redes bacterianas y  tecnológicas [“Autonomia, Comunicação e Evolução em redes bacterianas e tecnológicas], biTARTE 38 [http://www.ehu.es/iasresearch/doc/2006_ba_guiu_biTARTE_sub.pdf].

[4] Merelo, J.J., Ruíz, V.R. e Tricas, F. (2003) Blogosfera: creación de una comunidad a través de los enlaces [“Blogosfera: criação de uma comunidade através das ligações”]. En.red.ando 303 [http://geneura.ugr.es/%7Ejmerelo/enredando/blogosfera.pdf].

[5] Como exemplos (entre muitos outros), o trabalho realizado pelo Grupo de Sistemas e Comunicações da Universidade Rei Juan Carlos de Madrid [http://libresoft.urjc.es] ou o grupo de pesquisa de Christophe Lejeune na Universidade belga de Liège [http://www.smess.egss.ulg.ac.be/lejeune/].

[6] Como as jornadas de Pesquisa realizadas em Barcelona em 2004 [http://www.investigaccio.org/] ou o trabalho da Universidad Nómada [Universidade Nômade] [http://www.sindominio.net/unomada/].

[7] Wu Ming 4 é escritor copyleft, ativista e coautor de Q, 54 e giap! O segmento modificado (pertence ao prólogo a Guerrilla, de T.E. Lawrence, Lawrence de Arábia, publicado também com copyleft pela editora Acuarela) resume os fundamentos da guerrilha irregular ao “fazer da própria mobilidade uma metáfora da mutação social, ser portadores da mesma mudança, atuando por contágio ao longo das linhas do deserto, que conduzem a céus e terras novas” (p. 35).

 

<< Embriogênese dos corpos políticos do copyleft

>> Esboço de uma cartografia reticular através de algumas trajetórias ativistas

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