O que é a edição?

3. O copyleft no meio editorial

O que é a edição?

Emmanuel Rodríguez (Traficantes de Sueños[1])

O mundo da edição compreende tudo o que gira em torno da produção, preparação e apresentação de textos. Este âmbito, que é ao mesmo tempo uma indústria, tem no livro em papel seu produto principal, mesmo que possam ser incluídos aí folhetos, panfletos e edições ainda atípicas como a ampla variedade de formatos eletrônicos. Em todo caso, e com o fim de sermos absolutamente práticos, vamos restringir boa parte deste artigo ao livro em papel, o “formato” da era da imprensa que se recusa impertinentemente a desaparecer e mantém sua teimosa hegemonia. E isso apesar de que há pouco mais de uma década exista quem anuncie seu final.

A edição compreende três sujeitos principais: os autores, os editores e o público. Os autores são os produtores de textos, os escritores. Todas as legislações coincidem em considerar que o autor tem direito ao reconhecimento da autoria e à decisão ou não sobre a divulgação de seus textos (o que na legislação espanhola se conhece como “direitos morais”[2]). Além disso, cabe ao autor decidir em que condições sua obra vai ser distribuída e se ele permite ou não que ela seja modificada.

Os editores se encontram em um segundo nível, por assim dizer. Trabalham sobre os textos dos autores, preparam-nos em formatos atraentes e organizam sua difusão. Mesmo que autor e editor possam ser a mesma pessoa (e de fato as tecnologias de informática e internet facilitaram muito a autoedição ao fazer com que seu custo tenda a zero), tratam-se de trabalhos diferentes. O trabalho do editor consiste em preparar o texto em um formato legível e adequado ao leitor. Isso inclui áreas extremamente técnicas que têm como único objetivo preparar o texto para a publicação: correção ortográfica, correção de estilo, diagramação e design do livro, impressão e, por fim, lançamento e distribuição. Muitas dessas tarefas acrescentadas ao texto (como a edição propriamente dita e o projeto gráfico) geram por sua vez direitos de autor, que normalmente são considerados obras derivadas do texto original. Definitivamente, o editor acrescenta ao texto um trabalho de preparação, apresentação e difusão que inclui desde o projeto gráficodo livro (página de rosto, imagens, interior) até sua promoção e difusão; desde assegurar a o fornecimento do texto às livrarias até a organização dos lançamentos e eventos de comunicação pública.

É óbvio que o editor não realiza todos esses trabalhos. Normalmente ele os deixa nas mãos de profissionais, e sua atividade principal é a de coordenar o conjunto do processo que compõe o ciclo de valor da indústria editorial e que se descompõe em uma imensa variedade de profissões: designers, gráficos, comerciantes, distribuidores, livreiros. Assim, a edição tem uma importante faceta empresarial, já que a produção de várias centenas, milhares ou inclusive dezenas de milhares de exemplares em papel pressupõe um enorme investimento de trabalho e dinheiro que normalmente não está ao alcance dos autores.

Por último, o público, o misterioso sujeito do mundo da edição. Reduzido na maioria das vezes a uma vasta coleção de consumidores culturais, é considerado a massa difusa que toda uma indústria tenta perseguir, e inclusive “produzir” (pelo uso de todo tipo de técnicas de marketing e publicidade) para garantir o sucesso do investimento realizado na produção dos textos. No entanto, o público está praticamente excluído da legislação, mesmo quando ainda lhe permitem a cópia privada (apesar de haver cada vez mais restrições) e alguns direitos relativos à distribuição, reprodução e citação, normalmente associados à pesquisa e à produção de conhecimento.

Por outro lado, quase tudo o que é dito em relação ao copyleft tem seu principal fundamento no público (na sociedade em geral) como primeiro substrato de toda produção intelectual e cultural. Sem a permanente recombinação (baseada sempre na cópia, na variação e na mistura) dos elementos culturais e cognitivos não haveria, certamente, inovação e produção cultural. O copyleft é instituído justamente para que essa recombinação permanente, que funda os conhecimentos e saberes de uma sociedade, continue sendo a matéria livre (o que muitos já chamaram de utilidade pública) desse mesmo processo a que chamamos cultura.


NOTAS:

[1] Traficantes de Sueños (www.traficantes.net) é um projeto multifacetado que se formou em meados da década de 90, com o fim de servir de espaço de formação, reflexão e reunião para os movimentos sociais de Madri. Atualmente é formado por uma livraria, uma distribuidora alternativa e pela editora. Além disso, é animador e cogestor de um espaço social e cultural singular no centro de Madri, localizado em Embajadores 35.

[2] Para as leis brasileiras de direito autoral, consultar: http://www.cultura.gov.br/site/2010/09/30/leis-2/ (N.T.)

 

>>  O copyleft na edição

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  1. Republicou isso em cadê rogêe comentado:
    O futuro dos direitos autorais.

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