Como epílogo: mais além do copyleft?

Como epílogo: mais além do copyleft?

Falamos muito dos autores neste artigo. Conforme a legislação, os autores têm todo o poder para decidir como é distribuída e comercializada sua obra. São o primeiro elo da cadeia de produção cultural e intelectual e sem sua aposta decidida a favor do copyleft, este não tomaria lugar.

Também falamos dos editores, do poder que eles têm para impor suas condições aos autores, dos custos que têm de enfrentar e de seus frequentes prejuízos diante do copyleft. Mas também a vocação de muitos deles, que os levou a assumir o copyleft como um meio natural para concretizar sua função social primordial: a difusão da cultura e, portanto, a aposta a favor de que ela circule com a maior liberdade possível.

Contudo, nada falamos sobre esse terceiro personagem que apresentávamos no início e que somente por convenção chamamos de público. Ele é quem dá pleno sentido ao copyleft. Contudo, o copyleft é construído a partir da legislação e, portanto, da vontade dos autores. Os direitos que as licenças concedem, mesmo as menos restritivas, têm, como se disse, a forma de uma “carta outorgada”, que somente pode definir e defender. Mesmo quando é o público, essa matéria tão “enevoada” quanto opaca, quem compõe a infinidade de reações sociais que estão por trás cada criação.

Sem a memória social acumulada, sem o uso criativo dessa cultura e desses conhecimentos pelo público, sem a escolarização das massas e a profunda imersão cultural e midiática, sem formas de vida novas que geram seus próprios conhecimento e tendência culturais, isto é, sem a própria vida social em toda sua complexidade, não seria por acaso impossível algum ato de criação? Não é, em suma, o público o verdadeiro sujeito da criação intelectual?

Nossa legislação segue baseada em uma ideia de criação individualizada na figura do gênio, o que torna indissociável a obra de seu criador. Contudo, toda inovação é feita de forma coletivo por caminhos por vezes muito complexos que normalmente incluem comunidades e formas de vida diferentes (culturais, científicas) e circuitos de formação que frequentemente têm grandes financiamentos públicos (universidades, centros de arte, de pesquisa).

O movimento copyleft deveria partir dessa consideração para tentar abrir, enquanto se generaliza, uma nova concepção da norma e da lei, que faça do público e do bem comum o bem mais valorizado para ser conservado e reforçado, sempre com o objetivo de multiplicar nosso legado intelectual.

 << Rumo a uma comunidade copyleft no meio editorial

>> Arte e copyleft (capítulo 4)

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