Rumo a uma comunidade copyleft no meio editorial

Rumo a uma comunidade copyleft no meio editorial

No mundo da edição de texto, não existe propriamente uma comunidade copyleft: uma trama de individualidades e de projetos coletivos que defendam e promovam o copyleft no meio editorial, como podem ser as associações de autores e escritores copyleft, grupos de editores, instituições e arquivos de materiais copyleft ou até mesmo um “público” que reconheça e demande livros e edições copyleft. Contudo, já existe um interessante número de iniciativas que promovem o copyleft.

Dentro do meio da produção de textos escritos e da literatura, é preciso mencionar, devido a sua enorme repercussão pública, o autor coletivo Wu Ming, antes reunido em outra assinatura anônima e plural (desta vez em escala global): Luther Blissett. Wu Ming (literalmente “sem nome” em mandarim), tal como seu predecessor, é um projeto de autoria coletiva, no qual a figura do autor se desfoca tanto na pluralidade da assinatura quanto em um público que se considera algo além de mero receptor passivo. A partir dessa ideia da obra como cocriação, Wu Ming desenvolveu toda uma interessante rede de apoio à promoção do copyleft, começando, obviamente, pelas licenças copyleft de toda sua produção cultural.

Wu Ming é, contudo, a ponta do iceberg de um pequeno movimento de autores cada mais predispostos. Entre eles, talvez os mais destacáveis não pertençam ao meio literário ou da intelligentsia pública, mas à produção científica. Obviamente a ciência sempre foi copyleft. Sem a livre discussão dos resultados científicos, sem sua possível verificação e modificação, não existiria nenhum meio que pudesse se considerar científico. Não é, portanto, casualidade que exista um número de cientistas e docentes que tenham começado a se preocupar com que não somente os resultados, mas também os meios de divulgação sejam copyleft.

Dentro do mundo da edição propriamente dita, as experiências são muito menores. As razões são evidentes, por um lado os editores são muitas vezes os principais investidores no processo de produção de livros. A busca de rentabilidade determina um certo “espírito conservador” que rejeita o copyleft, tanto por desconhecimento quanto por apreensão em relação a algumas possíveis liberdade, mesmo as mais tímidas (como a distribuição não comercial e as edições digitais), que poderiam afetar sua posição de mercado e, com ela, suas vendas. Por outro lado, não se pode esquecer que a edição é uma indústria, que segue dominada (como se disse) por um punhado de grupos editoriais que em caso algum se arriscariam a promover iniciativas de rentabilidade comercial duvidosa.

Em todo caso, e esse é um dos assuntos mais paradoxais, alguns dos promovedores mais importantes do copyleft na edição são precisamente as editoras. Esse é o exemplo da editora Traficantes de Sueños (desde a qual é feita a produção e a edição original deste guia e deste artigo), que já publicou mais de meia centena de livros com diferentes licenças copyleft e que aplica uma política de acordos com os autores para que eles compreendam e aceitem que o melhor para seus livros é a utilização desse tipo de licenças. O resultado foi a proliferação de diferentes edições digitais dos livros publicados e a criação de uma pequena biblioteca virtual (disponível em http://www.traficantes.net/editorial) de alguns textos que, de outro modo, não poderiam estar disponíveis na internet.

Em todo caso, a Traficantes de Sueños já não é mais um caso isolado. Com maior ou menor habilidade na aplicação das licenças, com maior ou menor timidez, existe todo um leque de editores que começaram a publicaram alguns livros em espanhol com copyleft: Virus Editorial, Bellaterra, Acuarela, Ediciones Bajo Cero, Atrapasueños, El Viejo Topo e tantas outras.

Outro meio interessante no qual o copyleft está começando a ter desenvolvimento importante, ainda que ultrapasse bastante o objeto deste artigo, é o jornalismo. O primeiro exemplo importante é talvez o do jornal de distribuição gratuita 20 Minutos, que disponibiliza toda sua informação com uma licença Creative Commons. Ainda mais interessante é o fato de que o meio da blogosfera, os blogs e fóruns na internet, seja na maior parte inclinado para o copyleft, e que um número considerável tenha licenças copyleft.

Mas, talvez, o espaço que devesse ser mais promissor, já que em caso algum deveriam valer os argumentos de rentabilidade comercial, seja o das instituições públicas. Em muitas ocasiões, elas dispõem de serviços de edição que representam uma parte substancial dos conteúdos publicados em papel. Convencer essas instituições, financiadas com dinheiro público, de que a melhor maneira de fazer seu trabalho editorial plenamente coerente se dá por meio do copyleft é uma das principais tarefas dos defensores do bem comum.

<< A batalha pelo copyleft

>> Como epílogo: mais além do copyleft?

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  1. Muito bom este site!!! Valeu demais!!!
    Para quem quiser conhecer uma línea editorial left…deixo:
    http://www.thydewa.org/downloads/

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